O Farol Diário – O Brasil continua parado no tempo quando o assunto é alfabetismo funcional. De acordo com os dados mais recentes do Indicador de Alfabetismo Funcional (INAF), divulgados nesta segunda-feira, 29% da população entre 15 e 64 anos é incapaz de compreender textos simples e resolver tarefas básicas de leitura e matemática no cotidiano. A estagnação, acentuada pelos efeitos da pandemia, acende um alerta sobre a efetividade do sistema educacional e o papel negligenciado de outros espaços de aprendizado.
O levantamento, realizado entre dezembro de 2024 e fevereiro de 2025 com 2.554 pessoas, foi conduzido por instituições como Ação Educativa, Unesco, Unicef e fundações privadas. A coordenadora do estudo, a economista Ana Lima, afirmou que os resultados foram mais negativos do que o esperado, e alertou para o peso da pandemia não apenas na educação formal, mas também na ausência de vivências letradas em espaços como o trabalho, o comércio e o lazer.
Entre os jovens de 15 a 29 anos, o percentual de analfabetos funcionais subiu de 14% em 2018 para 16% em 2024. Já entre os estudantes do Ensino Médio, o número de analfabetos funcionais saltou para 17%, enquanto apenas 38% alcançaram os níveis mais altos de alfabetismo. Mesmo no ensino superior, apenas 61% dos estudantes atingem um nível consolidado de leitura, o que evidencia uma formação cada vez mais superficial e incapaz de reverter as deficiências herdadas do Ensino Básico.
O cenário é ainda mais grave entre a população negra: apenas 31% dos autodeclarados pretos e pardos atingiram os níveis mais altos da escala de alfabetismo, contra 41% entre os brancos. Os dados sugerem que o aumento da escolaridade entre pessoas negras não tem sido suficiente para romper barreiras estruturais no acesso à educação de qualidade.
Especialistas apontam que, além da escola, o ambiente de trabalho pode e deve ser um espaço de reforço ao letramento. A proposta de iniciativas simples, como menus explicativos em refeitórios ou comunicados acessíveis, pode contribuir para o contato cotidiano com a leitura e a interpretação. “Não dá para jogar todo o peso nas costas da escola”, diz Lima. “Há um potencial pouco explorado no cotidiano adulto.”
O estudo reforça que, sem uma abordagem integrada entre escola, trabalho e sociedade, o Brasil corre o risco de manter grande parte da sua população à margem do conhecimento necessário para participar plenamente da vida em sociedade. A estagnação do alfabetismo funcional não é apenas um retrato da educação — é o espelho de um país que insiste em não investir com seriedade na formação de seus cidadão





